A aerodinâmica do besouro

Em todos esses anos de consultoria já vi e participei de muitas mudanças em centenas de empresas. Mudanças de cultura, de postura, de discurso, de posicionamento e de pessoas.

Poucas, entretanto, consciente ou inconscientemente, traziam na essência a proposta de rompimento do “muro mental” que as demarcavam. Permaneciam nos limites da demarcação do possível. E o possível tornou-se obsoleto! Li, uma vez, a biografia de alguém que rompeu o limite do possível. E me detive na seguinte frase: “Eu procuraria por algo marcado por alguma mudança profunda de paradigma, onde pudesse fazer uma diferença”.

O conselho é do criador da Microsoft, Bill Gates, ao responder a um estudante de Harvard sobre o campo de estudos que ele escolheria, se fosse aluno. Para todos nós que acompanhamos a trajetória vitoriosa deste ex-universitário – que abandonou os bancos escolares para se tornar empreendedor-, esta frase sintetiza a razão do sucesso dos empreendimentos dele.

Gates continua buscando realizações, geralmente consideradas inatingíveis ou impossíveis para os outros. Para Bill Gates, tudo parece possível. Mas o que ele tem de especial? Será que só a inteligência e o talento são suficientes para criar uma das mais importantes empresas de tecnologia do mundo? Acredito que não.

O que sobra em pessoas como Gates é ousadia e coragem para praticar a estratégia do impossível, 24 horas por dia. Estou certo que para quem se destaca pela conquista do inusitado, o que vai desde a criação do avião até a descoberta da sequência do genoma humano, a frase “farei o possível” passou, passa e passará longe de pensamentos e discursos.

No século XIX, o escritor irlandês Oscar Wilde já dizia que o progresso é a realização das utopias. Ou seja, o crescimento exige que pensemos a frente, que nossas ações sejam pautadas pela paixão de sempre querer mais, pelo sonho, pelo abandono de nossa zona de conforto. Condições totalmente incompatíveis com fazer somente o possível.

Quando reflito sobre a influência de condicionamentos individuais e coletivos em nossas atividades profissionais, lembro do escritor português José Saramago, para quem o cérebro é usado de maneira excessivamente disciplinada, fazendo com que a gente pense o que é preciso pensar, o que nos permitimos pensar.

Concordo, principalmente porque acredito que aquele que não sabe o que é impossível, o faz. Um conceito que também me remete à historinha do besouro: cientistas analisavam as características anatômicas de um determinado tipo de besouro, que, teoricamente, o impossibilitaria de voar.

Ao questionarem como o inseto realizava tal proeza, foram alertados por um leigo que ouvia a conversa: – ele voa porque não conhece aerodinâmica. Bingo! A realização do impossível começa quando cancelamos a impossibilidade, quando desbloqueamos nossos pensamentos dos limites e acreditamos no “irrealizável”, a utopia de Oscar Wilde.

Precisamos abrir nossas cabeças e aguçar nossos sentidos para a criatividade. Concretizar o que ainda está por vir exige assumir riscos. Como ensinam os criadores do Cirque du Soleil, que reinventaram o espetáculo circense ao enfatizar que os protagonistas do show não devem se limitar ao que ensaiaram, “mas devem usar seus corpos para esculpir histórias, materializar ideias do nada, despertar as emoções da platéia”.

E tudo isso em meio a inevitáveis acidentes, que para eles nada mais são do que oportunidades disfarçadas para serem ainda mais criativos.

Com base nesses conceitos e exemplos, sugiro uma reflexão sobre as possibilidades e impossibilidades que moldam a cultura empresarial. Por exemplo, sua empresa motiva a equipe a se reinventar? Sua empresa busca tornar o impossível em possível? Sua empresa busca caminhos de reinvenção de cultura discutindo o impossível ou entrega-se, sem resistência, ao bloco do “só se abaixar os preços”.

Enfim, uma última questão, que considero determinante para iniciar a mudança de postura proposta até aqui: o que de impossível sua empresa fará daqui para frente?

Pense nisso e até a próxima carta do mês!

Denis Mello

Diretor-presidente

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