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Por Arícia Martins e Carlos Giffoni
A virada do primeiro para o segundo semestre não trouxe encomendas
firmes que permitam a maioria dos setores industriais planejar um aumento de
produção sobre o ano passado. A certeza de vendas maiores está restrita aos
setores beneficiados com a redução do Imposto sobre Produtos Industriais (IPI),
como linha branca, móveis e automóveis. Segmentos já beneficiados com a
desoneração da folha de pagamentos, cujo efeito para o consumidor é menos
visível, e fabricantes de insumos e bens intermediários esperam vendas melhores
que as dos primeiros seis meses, mas poucos planejam aumento em relação ao
segundo semestre do ano passado. Para muitos, "empatar com 2011" passa a ser a
meta deste ano.
O setor de papel ondulado, que é um bom termômetro para as encomendas da
indústria, não aposta em resultados mais expressivos na segunda metade do ano.
De janeiro a maio, o setor acumula crescimento da produção de 1,6% frente ao
mesmo período de 2011. A expectativa para 2012 é de avanço entre 2% e 2,5%. A
aceleração, avalia Ricardo Trombini, presidente da Associação Brasileira da
Indústria do Papel Ondulado (ABPO), é sazonal. Ainda que a atividade econômica
retome o fôlego e cresça entre 3,5% e 4% no segundo semestre, como é dito pelo
governo, Trombini não aposta num crescimento robusto para o setor.
"Para o setor de papel ondulado, não adianta se a indústria automobilística e a
construção civil puxarem o crescimento, compensando as perdas da indústria
manufatureira. Só sentiremos os efeitos se setores como o têxtil, de
eletrodomésticos e calçados tiverem crescimento vigoroso e tenham participação
no varejo, não sendo substituídos pelos importados", explica Trombini.
O presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos
Loureiro, conta, a partir da percepção das empresas associadas, que a primeira
semana de julho "começou muito devagar" para o setor de aço plano. "A
recuperação da indústria esperada para o segundo semestre ainda não apareceu. É
muito cedo para carimbar o mês, mas o começo não foi auspicioso", disse. Após
salto de 18% das vendas entre abril e maio - fruto de antecipação de compras com
expectativas de aumento de preços que não se concretizou -, a previsão do Inda
de queda de 15% em junho está se confirmando. "Talvez essa queda seja até
maior", cogita Loureiro.
O presidente do Inda trabalha com crescimento zero nas vendas de aço plano no
primeiro semestre, período em que o segmento foi prejudicado por demanda mais
fraca da indústria e estoques elevados. A redução do IPI para automóveis também
não gerou expectativas de aumento adicional do consumo na segunda metade do ano.
"Tínhamos imaginado crescer 6% em 2012, mas estou achando que esse número é
muito forte".
O setor químico, que produz matérias-primas para diversas cadeias, não sentiu
recuperação das encomendas em julho, como era previsto pela Associação
Brasileira da Indústria Química (Abiquim). A diretora de economia da entidade,
Fátima Ferreira, deve fechar os resultados de junho no final deste mês, mas
conclui, a partir de conversas com empresas, que não houve mudança de cenário no
início do terceiro trimestre, período que geralmente é o mais aquecido do ano
para o setor. Em maio, último dado disponível, a produção de químicos caiu 1,2%
frente a abril, enquanto as vendas internas encolheram 0,1% no período.
O governo estuda criar um regime especial de tributação para a indústria química
no âmbito do Brasil Maior. A ideia é reduzir impostos para empresas que usarem
insumos nacionais na produção. O setor, segundo Fátima, tem "excelentes
expectativas" em relação à medida, mas o governo não pode demorar muito para
agir. "A continuar do jeito que estamos, se conseguirmos igualar a produção do
ano passado, já está de bom tamanho". A produção de químicos aumentou 5,8% de
janeiro a maio devido à base fraca de comparação de 2011, quando um apagão no
começo do ano paralisou fábricas.
Mesmo prevendo um segundo semestre mais aquecido que o primeiro, o assessor
econômico da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Gilmar
Freitas, não arrisca projeções de crescimento sobre 2011. O primeiro semestre,
conta Freitas, foi marcado por concorrência ainda acirrada de produtos
importados, que continuaram com preços atrativos devido à produção mundial
excedente, e à restrição ao crédito, o que afetou o setor de motocicletas.
Diante de queda de 6% na produção entre janeiro e maio, segundo estimativas
preliminares da Fieam, o polo demitiu oito mil trabalhadores no período. O
economista não tem dados sobre encomendas para julho, mas acredita que o
desempenho da produção deve "apresentar melhora significativa" em relação ao mês
anterior, porém sem superar julho de 2011.
Na avaliação da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq)
os incentivos ao investimento não irão surtir efeito neste ano, como espera o
governo, devido ao ambiente pouco favorável, diz Mario Bernardini, assessor
econômico da presidência da entidade, que ainda não tem dados sobre junho e
julho.
A MAN Latin America, fabricante alemã de ônibus e caminhões, encerrou 2011
produzindo de 300 a 350 veículos por dia e, nos seis primeiros meses de 2012,
viu a média cair para 230 a 250 unidades. O resultado é atribuído pelo
presidente da companhia, Roberto Cortes, ao arrefecimento doméstico e,
principalmente, às mudanças nas regras de emissões de gases poluentes, que
elevaram as vendas de caminhões no fim do ano passado. Até junho, a produção da
MAN caiu de 30% a 40% em relação a igual período de 2011.
"Nossa produção no segundo trimestre foi muito baixa, assim como a de todo o
setor de veículos", diz Cortes. Ele conta que, entre abril e junho, a companhia
realocou empregados de setores ociosos para ajudarem na manutenção da fábrica,
antecipou parte das férias e cancelou dias de trabalho. As medidas foram
adotadas concomitantemente, justifica Corte, para a MAN se preparar para uma
demanda que crescerá no segundo semestre, já a partir de julho. (Colaborou Diogo
Martins, do Rio)
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