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Por Andrea Giardino
O cenário está propício para quem deseja mudar de emprego. Há vagas disponíveis
em diversos setores e empresas dispostas a pagar salários mais altos para ficar
com o funcionário que desejam. Mas a facilidade de trocar de trabalho é uma arma
para ser usada com moderação. Em muitos casos, rodar demais em busca de pequenos
aumentos salariais pode levar a um desgaste da imagem do profissional.
Antes de aceitar um convite de trabalho é preciso entender se já está mesmo na
hora da mudança ou se você está abandonando um projeto antes de concluí-lo
apenas por uma grana a mais. Sair antes da hora pode parecer uma conduta sem
maiores consequências diante de uma boa proposta. Mas, no futuro, na hora de
provar sua experiência — o maior bem de um profissional —, a ausência de
realizações pode ter peso negativo.
“Mudar apenas por ambicionar postos mais altos dá a impressão de que a pessoa
não tem capacidade de se manter no cargo por muito tempo”, diz Marcelo Arantes,
vice-presidente de RH da Braskem, do setor petroquímico. Nos últimos cinco anos,
a engenheira agronôma Mariana Godoy, de 29 anos, analista de mercado da FMC,
empresa de defensivos agrícolas, trocou quatro vezes de emprego e duas de
cidade.
Tantas mudanças fizeram com que sentisse na pele o preço de suas escolhas. “Há
algum tempo passei por um processo de seleção e, na etapa final, ouvi do
presidente que ele não poderia me escolher porque tinha dúvidas se eu estaria lá
no dia seguinte”, lembra. Em todos os casos, Mariana pediu demissão por sentir
que estava estagnada. Ao perceber que não tinha mais como crescer, procurava um
novo emprego.
“Sempre soube quando meu ciclo havia se encerrado”, diz. Para ela, essa vasta
experiência permitiu adquirir um enorme aprendizado. No entanto, tem consciência
de que fazer seguidas movimentações pesou de forma negativa no currículo. Muitos
funcionários, ao sentir insatisfação no trabalho, não hesitam em largar tudo e
ir embora. Alguns enxergam, inclusive, a chance de conseguir um salário maior.
“Essa manobra é um erro estratégico”, diz o consultor Rafael Souto, da Produtive,
que assessora profissionais e empresas em fase de transição, de São Paulo. “As
propostas de emprego têm sido bem atraentes, mas é preciso ter cuidado nas
trocas oportunistas.” Segundo Rafael, os recrutadores fazem uma radiografia do
currículo e ficam reticentes quando percebem que o candidato não para em lugar
nenhum.
“Quem troca demais de emprego não vai concluir nada. Como, então, essa pessoa
explicará na entrevista o que não fez?”, questiona. Para a paulistana Ivelise de
Souza, 26 anos, gerente de compras da distribuidora de gás SHV e que atualmente
mora no Rio de Janeiro, o fato de ter mudado três vezes de emprego em apenas um
ano não chegou a atrapalhar sua carreira. “Se não havia para onde ir, o melhor
era buscar novos desafios”, diz. Ela reconhece, entretanto, que deixou projetos
no meio. Mas acredita que seus ciclos haviam chegado ao fim nas outras empresas.
“Aqui tenho como crescer, já que a holding possui oito empresas e posso me
movimentar”, explica.
Reconhecendo os sinais
Quando descobrir se é hora de mudar? Há sinais que mostram o momento certo de
começar algo diferente — dentro ou fora da organização. Assim como acontece na
vida pessoal, a carreira é formada por ciclos. É essencial reconhecer quando um
ciclo se encerra para dar início a um novo. “O maior sinal de que umciclo chegou
ao fim é a falta de desafios e de motivação”, diz Marcelo, da Braskem.
Permanecer no mesmo cargo por anos a fio sem assumir novos projetos e ter a
sensação de que não há mais nada para aprender são alguns indícios de que um
ciclo acabou.
Vale a pena fazer um checklist básico. Pergunte a si mesmo: você se sente
desafiado e motivado na função atual? Continua com poder de influência dentro da
organização? Ainda há o que aprender? Existem perspectivas de crescer?
Interromper um ciclo sem arranhar sua imagem é resultado de um exercício
constante de autoconhecimento. “Quem passa muito rápido por várias funções e não
completa o ciclo, ao ser cobrado depois por decisões estratégicas, não terá
maturidade para o tamanho de sua responsabilidade”, alerta Marcelo.
Embora não exista regra para o período de tempo que a pessoa deva ficar no mesmo
emprego, headhunters são unânimes em afirmar que com menos de dois anos numa
função não é possível fechar um ciclo de começo, meio e fim. Exceção para
aqueles que atuam em projetos de prazo determinado. Toda a discussão sobre
ciclos de carreira tem sentido quando o profissional recebe propostas que
representam um aumento financeiro não muito radical, abaixo de 20% da
remuneração total.
Nesses casos, ganhar um pouco a mais não vai compensar a falta de experiência
para contar. Para casos a partir desse valor, que sugerem uma mudança mais
profunda no padrão de vida da pessoa, é aceitável mudar. Muitas das propostas
atuais do mercado cobrem diferenças superiores a 20% do pacote de remuneração.
Aí, vale tirar o fim de semana para pensar no assunto, considerando a
longevidade do projeto, a cultura da empresa e, o mais importante, se você vai
fazer o que realmente lhe dá prazer.
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