A questão essencial da liderança
 
 

Por David Cohen

Um texto que todo chefe devia ler antes de se tornar chefe é o Discurso da servidão voluntária, escrito no século 16 por Étienne de La Boétie, um jovem francês de apenas 16 anos, do círculo de amigos de Montaigne.

Tão revolucionário era o texto que circulou em segredo, depois em versões parcialmente adulteradas. A força do original só surgiu 300 anos depois, em 1853.

O fio condutor do texto é uma simples pergunta, apenas uma: por que as pessoas se sujeitam a um líder? “Gostaria de entender como pode ser que tantos homens, tantos burgos, tantas cidades, tantas nações suportem às vezes um tirano só, que tem apenas o poderio que eles lhe dão, que não tem o poder de prejudicá-los senão enquanto têm vontade de suportá-lo, que não poderia fazer-lhes mal algum senão quando preferem tolerá-lo a contradizê-lo.”

À primeira vista, parece que o texto é datado. Afinal, vivemos em uma democracia. Mas La Boétie esclarece que seu raciocínio se aplica aos dias de hoje. “Há três tipos de tirano: uns obtêm o reino por eleição do povo; outros pela força das armas; outros por sucessão de sua raça”, diz.

Aquele a quem o próprio povo deu a liderança deveria ser o mais suportável. Porém, “assim que se vê elevado acima dos outros, lisonjeado com um não sei quê que chamam de grandeza, decide não sair mais”. Torna-se um tirano.

No mundo das empresas, esse raciocínio não deveria valer. Mas vale: por que os liderados aceitam o chefe? Por que lhe dão o poder de mandar?

Sim, claro, as pessoas suportam o chefe porque há o salário. Mas há remuneração em outros lugares – algumas pesquisas indicam consistentemente que a maioria das demissões ocorre para fugir de um chefe que não se quer mais suportar. Há também os raros casos em que as pessoas confiam que o líder seja o mais capaz de apontar caminhos e facilitar o percurso de todos. Você tem certeza de que este é o seu caso?

Um chefe é um chefe porque fundou uma empresa, ou porque foi promovido, ou porque foi contratado para liderar um grupo. Em qualquer caso, está acima dos outros, tem poder sobre os outros... e, pela lógica de La Boétie, em pouco tempo se acostuma a sentir-se acima dos outros. “Não tendo companheiro, está além dos limites da amizade, cuja verdadeira presa é a igualdade, que jamais quer claudicar, caminha sempre igual”, diz La Boétie.

Nesses tempos em que as pessoas têm muito menos paciência para as ordens, em que as empresas precisam do engajamento dos funcionários, o olhar “de cima” é muito mais questionado. Não à toa, o discurso da liderança ganhou um peso enorme no campo da administração.

Pede-se hoje uma liderança moderna, flexível, motivadora, que caminha ao lado. Mas como caminhar ao lado, posição típica da amizade, quando se está acima?

Se você é um líder, sua primeira missão é desmentir La Boétie.


 
Fonte: epocanegocios.globo.com

 
 
 

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