O business plan de Odorico Paraguaçu

carta do mes consultoria– “O que é cluster?”

Silêncio total na sala. Éramos 16 pessoas na mesa, entre presidente, diretores, gerentes, eu e um consultor da minha equipe. O autor da pergunta era o diretor comercial há muitos anos na empresa, homem sem muitas vírgulas e que sempre ia direto ao ponto.

O alvo da pergunta, de franqueza desconcertante, era o novo diretor de marketing, 30 anos mais novo do que o inquisidor e com apenas poucos meses de casa. Estávamos no meio da reunião e o diretor de marketing já havia mencionado, em sua apresentação, a palavra “cluster” inúmeras vezes. O desconforto gerado pela pergunta ficou evidente. Mas o que era para ser uma questão resolvida com uma simples resposta se tornou no que eu gosto de chamar, de farsa burlesca, estilo de comédia que se notabilizou na Idade Média.

-“Bem, se você não sabe o que é cluster, todo o entendimento desse planejamento vai ficar comprometido” – retrucou de maneira empertigada o jovem profissional. O silêncio se fez ainda mais ensurdecedor na sala. O diretor comercial não arredou o pé e fez questão de ouvir uma resposta. -“Satisfaça a minha curiosidade, por favor. O que é cluster?”

A comédia estava instituída. Sem pestanejar, o teimoso diretor de marketing recorreu àquele velho truque de professora de escolinha. -“Será que alguém pode explicar o que é cluster para o nosso colega?”

Segurei o riso e fiz menção de responder à pergunta e dar por encerrada a questão, quando me dei conta de que o diretor de marketing olhava insistentemente para os colegas. Era deles que ele esperava ouvir a resposta. Cruzei os braços e assisti o desenrolar da farsa. O presidente se impacientou:

– “Ninguém vai falar nada?” Um dos diretores, pressionado pela pergunta do presidente, balbuciou com uma indecisão mais constrangedora do que o silêncio inicial: – “Pra mim, do que eu já ouvi falar, é um termo de computação, não é?”

Diante da cara de desânimo do diretor de marketing, outro diretor dispara: – “Cluster não é enxame, em inglês?” -“Eu conheço como cacho…” – acrescenta outro. -“Não tem a ver com o General Cluster?” – dispara o diretor que começou todo o imbróglio, já rindo e brincando com a situação, se sentindo muito mais à vontade ao constatar que ele não estava sozinho em sua dúvida.

Com o ambiente bem mais leve e desanuviado, o diretor de marketing só precisava de uma resposta simples, na verdade um socorro, para continuar a apresentação. Foi quando o inesperado aconteceu: – “Professor Denis, poderia explicar aos colegas o que é cluster?” Caiu a minha ficha na hora. O diretor de marketing, ele próprio, não sabia a definição formal ou aproximada de cluster.

Todo o planejamento era uma colagem de uma coletânea de livros. Corri em socorro dele imediatamente. Expliquei a origem do termo e deixei claro que todos ali na mesa estavam certos. Cluster é termo oriundo da informática, servia também como coletivo de abelhas e para agrupar uvas. Como termo de marketing, expliquei a diferença entre as definições de Drucker e Porter, mas que encerravam o mesmo sentido.

Acho que salvei a reunião e a pele do recém-chegado diretor de marketing. Mas o fato me levou a uma reflexão. Aqueles homens ali presentes não eram pessoas ignorantes. Na verdade, eram profissionais competentes em suas áreas. Só não tinham ainda tomado contato com mais uma terminologia de marketing, ciência que gosta de pregar peças, inventando, todos os dias, termos e conceitos para o deleite dos jovens executivos da especialidade.

Muitos profissionais se apropriam de termos e novos conceitos e incorporam ao dia a dia como ferramentas de trabalho, sem dedicar o tempo necessário para se aprofundar e, realmente, constatar se essas ferramentas são adequadas à empresa.

Outros profissionais, que confundem produtividade com prolixidade, se inflacionam com esses termos e os passam adiante, muitas vezes, sem saber do que estão falando. O resultado é um contorcionismo de palavras, sem nenhuma base de conhecimento. Muito discurso, pouco conteúdo, nada de resultado prático para a empresa.

Esse tipo de profissional me faz lembrar o personagem Odorico Paraguaçu, na novela “O Bem-Amado”, de Dias Gomes, um dos maiores dramaturgos que o país já teve. Odorico Paraguaçu tinha como característica criar alegorias sem sentido e emendar termos, com a intenção de confundir e não explicar, em frases como: -“Essas obsolescências obsolentistas que tentam obscurecer nosso progresso com obscurantismo”, ou – “A oposição oposicionista só sabe se oposicionar” ou ainda – “Vamos sair dos entretantos e vamos direto aos finalmentes”.

Ele tinha a habilidade de falar sobre nada durante minutos seguidos, dando ao ouvinte a impressão de que falava algo realmente profundo. Existem muitos “Odoricos” na área corporativa, muitos deles ocupando altos cargos, presidindo reuniões com discursos sobre o nada. E o pior, todos concordando, meneando com a cabeça, com um olhar de incentivo. E, deste modo, ficam todos bem.

Vamos continuar assim, fingindo que estamos discutindo ideias. Para que questionar o modelo? Para que discordar da ideia de um colega “bom caráter”? Para que levantar questões válidas? Vai dar o maior trabalho e contrariar interesses. Se uma empresa quer realmente crescer, ela deve fazer todas as perguntas e exigir todas as respostas com toda a transparência, objetividade e sinceridade de propósito.

Aproveitando, se você não sabe o que é cluster, não faz a menor diferença!

Pense nisso e até a próxima carta do mês

Denis Mello

Diretor-presidente

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